Era uma vez um homem muito rico e feliz que tinha
uma única filha muito suave e bela. Passado um tempo, a sua boa esposa e
mãe da menina adoeceu gravemente. Antes de morrer, chamou
a filha para perto de si e disse-lhe: “Minha filha, minha
menina tão amada, peço-te que sejas sempre boa e generosa como eu mesma
sempre desejei ser. Vou viajar para muito longe, mas quando chegar ao Céu,
pedirei a Deus que te acompanhe e velarei sempre pelo teu bem“. Apesar do
sofrimento, a menina assim prometeu fazer e todos os dias visitava o lugar
do túmulo da Mãe. Era lá que chorava a sua solidão e a saudade.
No Inverno seguinte, aquele lugar silencioso ficou
coberto de uma neve tão espessa que só os raios primaveris foram
capazes de derretê-la . Por essa altura, o Pai da menina decidiu casar com
uma mulher má, invejosa e cruel que tinha duas filhas igualmente más, invejosas
e cruéis. Respeitando a vontade da nova esposa, o dono da casa consentiu
que a menina passasse a ocupar-se de toda a lida da casa e fosse
despojada de todos os seus haveres. Todas contentes, as irmãs disseram: “Isso
mesmo, vai para a cozinha! É lá o teu lugar“. A madrasta acrescentou: “De
hoje em diante, ganharás o teu alimento com o teu próprio trabalho e
trajarás como uma simples mendiga”. A boa
menina trabalhava intensamente: lavava, esfregava, varria, amassava,
costurava, ia buscar água ao poço, carregava com lenha e atendia a todas as
exigências da madrasta e suas filhas. Extenuada e sem aconchego,
adormecia diariamente à beira da lareira, bem perto do borralho que lhe
enfarruscava as roupas, as mãos e o rosto. Foi assim que as três maldosas
começaram a chamar-lhe Gata Borralheira.
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Ao fim de alguns meses, o Pai perguntou a todas antes de viajar
até ao mercado mais próximo: “- O que desejam que vos traga?” .”Nós
queremos vestidos e jóias”, responderam as duas enteadas. Gata
Borralheira apenas disse: “Meu querido Pai, peço-te que me tragas
um ramo florido e viçoso da primeira árvore que cruzares no caminho.” E
ele assim fez, satisfazendo todos os desejos.
Enquanto a madrasta e as suas duas invejosas
filhas experimentavam as jóias e os vestidos novos, a
menina correu para junto do túmulo da Mãe levando consigo
a pequena ramada. Plantou-a no chão e sobre ela verteu tantas lágrimas
que uma jovem avelaneira começou a nascer por entre os torrões de
terra. Era uma árvore tão bela que os pássaros vinham pousar nela e cantavam.
Sempre que ali voltava,Gata Borralheira era interpelada pela
mesma pomba branca que lhe segredava: “Não chores mais, querida menina.
Estarei sempre aqui para escutar e realizar os teus desejos”.
O soberano daquele reino tinha também um único filho em
idade casadoira. Resolveu, então, dar uma grande festa convidando todas as
jovens e suas famílias para que o Príncipe pudesse escolher livremente a sua
noiva. As duas filhas da madrasta gritaram por Gata Borralheira:“Onde
estás, Gata Borralheira? Despacha-te, vem imediatamente servir-nos: tens de
pentear-nos e arranjar-nos para que possamos ir ao baile!”. Ela assim
fez mas começou s chorar baixinho, suplicando: “Por favor, minha
madrasta. Deixe-me ir convosco à festa …”.Exasperada, a
mazona respondeu maliciosamente: “Sua andrajosa! Mas como irás ao baile
vestida de trapos velhos?… Muito bem. Irás se conseguires separar este prato de
lentilhas até ao sol pôr“. E, ao dizer isto, atirou as lentilhas para
as cinzas da lareira.
Gata Borralheira ficou desolada. Mas correu até alcançar a jovem avelaneira
que abraçou enquanto chamava pela Pomba. “Lembras-te, minha branca pomba?
Disseste proteger-me e realizar os meus desejos mais queridos. Suplico-te que
me ajudes a separar as lentilhas das cinzas“. “Sim, lá irei
e sempre te ajudarei“, retorquiu a ave. E assim fez: a Pomba chamou
outras pombas que por sua vez trouxeram pardais, pintassilgos, rolas e rolinhas
…. Todos debicaram até separarem todas as lentilhas. Radiante, a menina
foi então chamar a madrasta: “Oh! Humm … Muito bem. Mas não basta!
Terás de arranjar um vestido, sapatos novos e ainda terás de ser mais
rápida. Quero as lentilhas separadas e de volta ao prato em menos de um
ápice!”,acrescentou a megera voltando a atirá-las às cinzas.
Correndo em direcção à avelaneira, Gata Borralheira chamou
a sua amiga Pomba. “Onde estás minha branca pomba que prometeste cumprir os
meus desejos? A minha madrasta voltou a lançar as lentilhas às cinzas e
agora quer que as separe ainda mais rapidamente.” A Pomba respondeu-lhe: “Sim,
descansa. Lá irei e sempre te ajudarei.” Agora a Pomba e as
suas amigas aves tinham sido ainda mais velozes; mas quando a menina mostrou as
lentilhas separadas à malvada, ela gritou: “Agora já estou farta de te
aturar! Ficas em casa e pronto!”
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Gata Borralheira ficou em casa, desconsolada com a crueldade das três vilãs.
Depois de todos terem saído para a festa real, a menina foi em direcção à
Avelaneira e suplicou: “Árvore, árvorezinha transforma um dos teus ramos no
mais belo vestido de baile que possas inventar. E a avelaneira assim fez,
para que de duas bagas pudessem surgir dois sapatinhos côr de
ouro. Quando entrou na sala, todos ficaram espantados, incluindo
a madrasta e suas filhas que desconheciam a identidade da formosa
desconhecida. Quanto ao Príncipe, ficou maravilhado com a sua beleza e
dançaram toda a noite. Um pouco antes do final da festa, a
menina correu em direcção ao bosque e aí se escondeu para
devolver os seus sapatinhos e o vestido encantados.
O Príncipe ficou inconsolável por desconhecer o nome da sua
donzela e rogou ao Rei que lhe concedesse o previlégio de mais um dia
de festa. Na sua casa, Gata Borralheira esperou ansiosamente
a saída da madrasta e das suas filhas e de novo correu
em busca da Pomba da Avelaneira, repetindo “- Querida Pomba
Branca, minha doce Avelaneira! Suplico-vos que me ajudem a ir de novo ao Baile
Real“. A árvore e a ave assim fizeram para que pudesse voltar a
ser feliz. Quando o Príncipe a viu chegar ficou radiante, dançando com ela toda
a noite. No entanto, ao soar a última badalada da meia-noite, a misteriosa
donzela correu até ao bosque para devolver o segundo vestido à Pomba e à
Avelaneira. Como o Príncipe consorte a seguia, Gata Borralheira escondeu-se no
arvoredo, onde depositou o seu traje de festa, e regressou a casa sem
que ninguém suspeitasse de nada.
O Principe rogou ao Pai um último dia de festa para que, de
novo, reencontrasse a sua bela amada. O Rei consentiu e os
convidados regressaram ao palácio. Quando a Pomba e a Avelaneira a
viram aproximar, disseram à menina formosa: “Aqui tens um vestido
de prata e . Mais estes sapatinhos bordados e esta capa de ouro
velado”. O Príncipe e Gata Borralheira de novo
dançaram pela noite dentro, até que as doze badaladas de novo os separaram. Com
a pressa em regressar a casa, a jovem menina esquecera afinal um sapatinho
dourado na escadaria. O Príncipe pegou nele com ternura e prometeu encontrá-la.
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Ao amanhecer do dia seguinte, enviou os seus cavaleiros em
busca de todas as jovens do reino, para que experimentassem o sapatinho. Aquela
que o calçasse seria a nova rainha. Percorridas todas as casas,
restava apenas a de Gata Borralheira. Ao imaginar que uma das
suas filhas poderia vir a casar com o Príncipe, a madrasta obrigou-as a calçar
o sapatinho. Primeiro a mais velha, depois a mais nova: “Vá, calça o
sapatinho que não te arrependerás! Agora doi-te, mas quando fores Rainha logo
descansarás!“. Elas assim fizeram, mas de regresso ao palácio, o
Principe foi alertado por duas pombras brancas: ”Príncipe consorte, não
te deixes enganar! O sapatinho está tão apertado que ela nem pode andar!”. O
Príncipe decidiu entregar a primeira e a segunda filhas da madrasta e
assim voltar a sua casa.
Ao cruzar a porta da casa de Gata Borralheira, o jovem ordenou: “Façam
que se cumpra o meu preceito com toda a honestidade: existe alguma
donzela mais nesta casa? Todas as jovens casadoiras devem experimentar
este sapatinho“. O Pai de Gata Borralheira mandou chamá-la e, para
espanto de todos, a menina calçou o sapatinho sem qualquer dificuldade. “Oh!
Minha doce amada tão misteriosa!” . Dito isto, ambos seguiram para o
Palácio encontrando a mesma Pomba no caminho: “Podes continuar, é mesmo com
ela que deverás casar”,cantarolou a ave. Aguardando a sua
chegada, o Rei mandara preparar uma enorme festa de celebração. Eles
casaram e foram felizes para sempre, o que não aconteceu ao Pai, à Madrasta e
suas filhas maldosas que foram castigados e expulsos pelos outros habitantes.
Quanto à Princesa Gata Borralheira, ela continuou sempre a ser
boa, amando e sendo piedosa. E, sobretudo, visitando a
Avelaneira e a Pomba junto ao túmulo da sua Mãe